Região dos Lagos e Carretera Austral - Chile, Patagônia AR e CH,

     Apresento a vocês um breve relato da viagem que fiz ao Chile entre os dias 03 e 23 de janeiro de 2010, indo de Santiago a Puerto Rio Tranquilo.

     Como só tinhamos 20 dias de férias, fomos de avião até Santiago e alugamos um carro por lá. Estávamos em 6 pessoas, não encontramos nenhum 4x4 para todos. Queríamos ficar juntos, alugamos então uma Chrysler Town & Country. Embora o carro não tivesse capacidade off-road, mantivemos nosso objetivo de chegar pelo menos ao trecho inicial da Carretera Austral, para conhecê-la e levantar dados para uma futura viagem de jipe. Estou postando algumas fotos e informações aqui no fórum pois muita gente tem andado ou ainda quer andar por essa região.

     Nossa idéia inicial era de pegar o carro em Santiago, conhecer a região dos lagos e seguir pela Carretera Austral, até onde fosse possível com o carro. Sempre viajo com as crianças, então procuro ficar uns 2 ou 3 dias parado em algum lugar para não cansá-los muito. Eles têm sido excelentes companheiros de viagens. 

     Logo que chegamos fui a Viña del Mar conhecer meu “amigo virtual” chileno, o Ermitaño. Nos conhecemos e trocamos e-mails através do fórum argentino www.suzukiclub4x4.ar. Ele deu informações valiosas sobre lugares a visitar, é muito gente fina. Tem o avô dos jipes Suzukis, um LJ-80. Um carrinho extremamente simpático e bem conservado. 

Ermitaño e seu LJ

Ermitaño e seu LJ-80

     Começamos nosso passeio pelas Termas del Flaco. Um lugar muito diferente, com umas termas rústicas, alojamentos bem fuleiros e caros. A estrada que leva à região é muito estreita, então existe um horário para subir e descer. Na ocasião só poderíamos subir depois das 16:00 hs e voltar  no dia seguinte, pela manhã. Os “locais” se aproveitam disso e “enfiam a faca” na hospedagem. Foi a mais cara do Chile, cerca de US$ 200 dólares 2 cabañas muuuuiito ruins. Tava ventando pacas num camping local, decidimos encarar as cabanas. 

Termas del Flaco

Termas del Flaco

 

     A principal atração das termas são umas pegadas de dinossauros muito bem conservadas, ficam a 2 horas de caminhada da vila. Como nós gostamos dessas coisas, valeu o esforço e cada centavo gasto.

Pegadas de dinossauros

Pegadas de dinossauros

 

Imaginem o tamanho do bicho! 

                   Imaginem o tamanho do bicho!

 

    Seguimos então para a região de Pucón. Os vulcões maravilhosos começam a dar as caras no caminho: Descabezados,  San Pedro, Chillán, Llaima, Villarrica, e tantos outros. Decidimos nos hospedar em Villarrica. Achei a cidade bem mais simpática e tranqüila que Pucón. Ficamos nas excelentes cabañas Traitraico, a US$ 100,00 a diária para os 6.  Quem gosta mais de agito e boas lojas deve se hospedar em Pucón. 

     Em Pucón dormimos 4 dias: num dia visitamos o vulcão Villarrica, as Cuevas Vulcânicas (cavernas formadas por fluxos de lava) e andamos pelo parque nacional. Tínhamos vontade de fazer a subida à cratera do Villarrica, mas estava proibida por causa do grande volume de neve que teimava em não derreter no calor do verão. Na semana anterior uns turistas foram pegos por uma pequena avalanche, ferindo sem gravidade 2 pessoas, entre elas um brasileiro. 

Vulcão Villarrica

Vulcão Villarrica

 

      Noutro dia fomos ao Parque Nacional Conguillio. Eles dizem que é um dos parques nacionais mais bonitos do Chile. Realmente esse parque é impressionante, pede muitos dias de visita. Nele está o vulcão Llaima, um dos mais ativos do Chile. A paisagem vai mudando à medida que percorremos um circuito oval em torno do vulcão. 

Saltos Truful-Truful

Parque Nacional Conguillio - Saltos Truful-Truful

     A Laguna Arco-íris foi formada depois que um escorial de lava do vulcão Llaima bloqueou a passagem da água de um rio, inundando uma parte do bosque.

Laguna Arco-íris, Parque Nacional Conguillio 

                       Parque Nacional Conguillio - Laguna Arco-íris

 

Llaima visto do bosque de araucárias

O Llaima quase entrou em erupção em dezembro de 2009

Parque Nacional Conguillio - Vulcão Llaima

 

Em janeiro de 2008 entrou em erupção

Aluviões da erupção de 2008

Parque Nacional Conguillio - Rios de lava do Llaima da erupção de 2008

 

     No terceiro dia em Villarrica fomos às termas Geométricas, próximas a Coñaripe. Um dia perfeito para descansar e deixar as crianças “derreterem” na água. Essas termas são ao ar livre, com passarelas de madeira em um pequeno vale, onde corre um rio de águas geladas com nascentes de água quente, que é levada para piscinas de pedra encravadas na montanha. Um lugar muito bonito, eu não curto muito termas em ambientes fechados. Se estivesse de 4x4, poderia seguir em frente pela estrada e entraria novamente no Parque Nacional Villarica, passando entre os vulcões Villarrica e Quetrupillán. Dizem que é a parte mais bonita do parque. 

Termas Geométricas

                               Termas Geométricas

 

Termas Geométricas

                              Termas Geométricas

 

     Saímos de Villarrica e fomos a Puerto Varas, com direito a uma passagem por Valdívia. A cidade é simpática, com seu mercado municipal à beira–mar. Tem uma história interessante: em 1960, um grande terremoto seguido de um tsunami afundou a região em cerca de 3 metros e inundou uma grande área, formando várias lagoas que hoje circundam a cidade. É impressionante no Chile como a história geológica é recente. As mudanças estão acontecendo nos dias de hoje, coisas difíceis de vermos no Brasil.

     Chegando em Puerto Varas impressiona a visão do vulcão Osorno. Ele é muito bonito. O dia seguinte amanhece nublado. Decidimos visitar os Saltos de Petrohué e depois tentar subir ao vulcão. Não teve jeito, ele não quis dar as caras. A partir dessa região do Chile para o sul é assim: se o dia estiver bom, aproveite, não saberás como será o dia seguinte.

Vista? Vulcão Osorno

 

     Eu gostei mais da região de Villarrica do que Puerto Varas, embora tudo seja muito bonito. 

     Partimos de Puerto Varas para o destino que eu mais esperava da viagem, a Carretera Austral. Nessa altura, dia 12 de janeiro, já sabia que não chegaria a Villa O’Higgins, pois teria que estar dia 22 em Santiago. Tinha também muitas dúvidas de até onde poderia chegar em segurança com o 4x2 alugado. 

     Dormimos em Hornopirén, depois de um breve almoço e compras de mercado num Shopping em Puerto Montt. Compramos mantimentos com medo de uma emergência na deserta Carretera Austral. Deserta? A estrada está com manutenção constante feita pelo MOP (ministério de obras públicas). A previsão é de asfaltarem toda a Carretera até 2012! Más notícias para quem gosta de terra. 

     Em Hornopirén o dia estava muito nublado, com períodos de chuviscos, bem típico da região. A paisagem muda muito, para quem conhece parece um pouco a paisagem do litoral norte de São Paulo. Montanhas altas com florestas terminando no mar. A diferença é que a floresta é de coníferas e no topo das montanhas tem neve! É uma paisagem deslumbrante. O vulcão Hornopirén, que “guarda” a cidade, deu as caras quando estávamos esperando o transbordador. Para seguir pela carretera é necessário um transporte de balsa até Chaitén. São 7 horas de viagem. Antes esse transporte poderia ser feito até Caleta Gonzalo, um pouco anes de Chaitén, mas depois da grande erupção do vulcão Chaitén em 2008 a estrada está interditada. Dizem que a interdição também tem a ver com uma disputa política com o proprietário do parque Pumalin, um americano que comprou uma área enorme na região e transformou em reserva particular. Quem faz o transporte nessas regiões é a empresa Naviera Austral. As reservas devem ser pagas com antecedência, se não tiver passagem corre o risco de ter que esperar alguns dias para embarcar. Aconteceu com uns brasileiros que estavam por lá. 

Pegando o transbordador em Hornopirén

Transbordador em Hornopirén

 

     A Carretera Austral é um capítulo à parte. A estrada realmente é maravilhosa e merece a fama que tem. 

     Chegamos em Chaitén no meio da tarde. O cenário da cidade é impressionante. Quando o vulcão entrou em erupção, lançou uma quantidade enorme de cinzas sobre a região, a cidade teve que ser evacuada. O pior veio dias depois, com a explosão de uma face lateral do vulcão, lançando todo o tipo de material sobre o leito do rio, que aumentou consideravelmente seu volume. O rio, que cortava a cidade ao meio, arrasou a cidade cobrindo praticamente todas as casas com areia e cinzas. Nas fotos, onde se percebe areia misturada com água, era tudo mar. Muitos moradores estão tentando voltar e recomeçar a vida, mas o governo avisou que não dará nenhum apoio e planeja construir uma nova Chaitén, próxima à atual. Eles não têm distribuição de água nem energia elétrica. 

Chegada a Chaitén

Chegando em Chaitén

 

Baía de Chaitén assoreada pelo vulcão. Reparem onde está a casa!

Chaitén arrasada pelo vulcão

 

Centro de Chaitén

Centro de Chaitén

 

     Seguimos a viagem até La Junta, onde dormimos nas excelentes Cabanas Terrazas del Palena, às margens do rio Rosselot, a US$ 120,00. Outra opção legal de cabanas são as Cabañas Puente Rosselot. O caminho até La Junta é muito bonito, passando por rios cor de esmeralda e pelo lago Yelcho. Avistamos o primeiro glaciar da região, o Yelcho. Queria muito fazer a caminhada até o glaciar, mas o tempo não estava bom e logo o glaciar ficou tampado pelas nuvens. Assim é a região da Carretera Austral. Reitero, quando houver sol aproveitem a oportunidade, nunca deixem para passear depois. 

     O dia seguinte também amanheceu nublado, mas com nuvens mais altas e sem chuva. Seguimos para o sul, nosso objetivo era chegar a Puyuhuapi. Estava preocupado com as condições da estrada, mas no fim o piso estava muito bom para uma estrada de terra. Poucos buracos e estreita nos trechos de serra, o que requer atenção. O carro passou tranquilamente. Chegamos cedos a Puyuhuapi e fomos ao Parque Nacional Queulat, onde acampamos a US$ 10,00 por barraca. Excelente camping da CONAF, com água quente, banheiros limpos e uma boa cobertura onde dá para armar a barraca no caso de chuva. Nesse parque fica o Ventisqueiro Colgante (glaciar pendurado). É um glaciar maravilhoso, diferente da maioria pois as quedas de gelo ocorrem num precipício, fazendo um barulho enorme, como um trovão. A subida de 1:15 hs ao mirador superior é obrigatória! 

Chegando a Puyuhuapi

Chegando a Puyuhuapi

 

Ventisquero Colgante, visto do mirante

                              Ventisquero Colgante

 

     Saímos no dia seguinte cedo do parque rumo a Coihaique. A estrada agora tem uma travessia muito bonita da Cuesta Queulat, uma serra com lindas vistas para glaciares, cachoeiras e vales indescritíveis, além das florestas de nalcas - folhas gigantes típicas da região. Devem ter um diâmetro de quase um metro. 

Paisagens da Carretera Austral

Carretera Austral: Cuesta Queulat

 

Vista a partir da Carretera

                             Paisagens da Carretera Austral

 

     A estrada continuou boa, logo começa o asfalto que nos levou a Coihaique. Almoçamos e decidimos seguir viagem passando por Cerro Castillo, uma pequena vila. A chegada a Cerro Castillo é maravilhosa, com uma visão impressionante do vale e da montanha que dá nome ao lugar. Passeamos um pouco e seguimos viagem até Puerto Rio Tranqüilo, à baira do lago General Carrera (ou Buenos Aires, para os argentinos). Logo no começo desse trecho a estrada volta a ser de terra e estava um pouco pior, com alguns poucos buracos. Nada complicado para quem dirige em São Paulo. Depois melhora.

Chegada a Cerro Castillo

Carretera Austral - chegada a Cerro Castillo

 

    Chegamos ao nosso destino final na Carretera. Infelizmente não teríamos tempo para desfrutar a região de Caleta Tortel e Villa O’Higgins, assim deixamos essa região para outra viagem. Encontramos um brasileiro que disse que a estrada estava bem tranqüila até Caleta, piorava um pouco continuando até Villa O’Higgins. Para esse trecho final aconselharam a ir só com carro mais alto mesmo.

     O objetivo da próxima viagem será a região dos glaciares. De Puerto Tranqüilo há uma estrada que chega próxima à Bahia Exploradores. É um passeio de um dia inteiro com direito a caminhadas para observações de glaciares do Campo de Gelo de San Valentin. Quem foi disse que é maravilhoso. 

     O dia seguinte amanheceu com muito sol. Partimos para o passeio de barco até as Cuevas de Marmól, formações resultantes da erosão da água nas montanhas de mármore. É um passeio imperdível para quem está na região. O pequeno bote e o vento trazem muitas emoções ao passeio...

Cuevas de Marmól

Puerto Rio Tranquilo - Capillas de Marmól

 

     Voltamos ao meio dia. A idéia era voltar pela Argentina até Villa La Angostura. Pensei que um dia bonito com esse seria perfeito para passear pela Carretera Austral. O trecho argentino entre Los Antiguos e Esquel não tem muita graça, já conhecia de outra viagem a Ushuaia. Quando propus voltarmos pela carretera a aprovação foi unânime e imediata!

    Fizemos o caminho de volta a La Junta, num passeio muito gostoso e tranqüilo, com direito a paradas no vale do Rio Murta, Bosque Muerto (outra erupção, nos anos 80), em Cerro Castillo para visitar as pinturas rupestres próximas à cidade e almoço à tarde em Coihaique. Seguimos em ritmo de passeio e chegamos às 9 da noite (ainda claro no verão) em La Junta. A estrada percorrida no outro sentido mostra paisagens diferentes, deslumbrantes.

Paisagens da Carretera Austral

Carretera Austral - Vale do rio Murta

 

Paisagens da Carretera Austral

Carretera Austral - Bosque Muerto

 

Próximo a Cerro Castillo

Cerro Castillo - Paredón de las Manos

 

Agora com sol

Cerro Castillo, agora com sol

 

Paisagens da Carretera Austral

                          Carretera Austral - Cuesta Queulat

 

 Vista da Carretera

Ventisquero Colgante visto da Carretera

 

     No dia seguinte partimos em direção à Argentina, passando por Futaleufú. A viagem já entrou no ritmo de volta pra casa, deixando para trás boas lembranças. 

     Viajar em janeiro pelo Chile foi sossegado, pois as férias chilenas são em fevereiro. Já a Argentina estava uma loucura. Quase não encontramos lugar para dormir em El Bolsón e Bariloche. Voltamos ao Chile por Osorno, dormimos novamente em Villarrica e no dia seguinte voltamos para Santiago.

      Tinha o dia seguinte livre em Santiago, pois só à noite iríamos jantar com uma grande amiga brasileira que mora lá. Decidimos então fazer um passeio diferente à cordilheira. Por sugestão do Ermitaño, fomos conhecer o Cajón del Maipo. É uma excelente opção de passeio de um dia para quem está em Santiago e quer conhecer os Andes de perto. 

Termas de Colina

Cajón del Maipo - Termas de Colina

 

Cajón del Maipo

Cajón del Maipo - Embalse el Yeso

 

     Chegou a hora de voltarmos ao Brasil. Não tivemos na viagem nenhum incidente, inclusive o carro foi perfeito. Agradeço as dicas dos que foram antes e colaboraram com preciosas informações.




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