NOA 2008 - Argentina,

Este é o relato de minha viagem ao NOA (NOroeste da Argentina) em janeiro de 2008. Essa região ainda é desconhecida pela maioria dos viajantes brasileiros. Ela faz parte das regiões altas dos Andes, continuação ao sul do conhecido Altiplano boliviano. Seus vários salares, dunas imensas e centenas de vulcões fazem da região um dos lugares mais bonitos e incríveis que conheci.

A maior parte do meu planejamento foi feita através de depoimentos e dicas dadas por amigos argentinos do Suzukiclub e Patagônia4x4. Nas regiões mais inóspitas e desertas do NOA é sempre necessária a companhia de pelo menos mais um carro, por segurança. Foi através do Suzukiclub que conheci nosso colega Mário Iwakura, de Porto Alegre. Conseguimos encontrar uma data comum para a viagem e partimos em janeiro de 2008 para a aventura. 

A primeira parada foi em Foz do Iguaçu, onde passamos o ano novo. Meus filhos não conheciam Foz e ficamos dois dias para os passeios obrigatórios pelas cataratas. 

Cataratas

Cataratas do Iguaçu

Seguimos então a Posadas, já na Argentina, onde encontramos o Mário, que veio de Porto Alegre. Nosso próximo destino foi Salta. Salta é uma cidade é muito bonita, com vários passeios culturais e gastronômicos e pode ser considerada a base inicial para os passeios no NOA. 

Antes de subirmos para a região mais deserta, fizemos um circuito “oval” até Cafayate, uma cidade mais ao sul conhecida por suas vinícolas. Fomos pela Cuesta del Obispo, estrada de terra que passa pelo Parque Nacional Los Cardones e pela cidadezinha de Cachi. Foi nosso primeiro contato com altitudes acima de 3.000 metros. Temíamos um pouco pelo comportamento do Grand Vitara na altitude, mas o carro foi perfeito. 

Cuesta del Obispo

Cuesta del Obispo

Los Cardones

Parque Nacional Los Cardones

Entre Cachi e Cafayate a estrada passa pela Quebrada de las Flechas, uma região muio bonita.

Quebrada de Las Flechas

Quebrada de las Flechas

 Voltamos de Cafayate em direção a Salta pelo asfalto. A estrada passa pela Quebrada de las Conchas, uma região marcada por belas e incríveis formações rochosas, como o Anfiteatro com uma acústica incrível e a Garganta do Diabo.

Quebrada de las Conchas

Quebrada de las Conchas

 

Anfiteatro

Anfiteatro

Pouco antes de chegar em Salta começamos nossa subida a San Antônio de Los Cobres (SALC), uma cidadezinha que vivia da mineração e hoje acredito que o turismo é a maior fonte de riqueza. Passamos pela primeira vez dos 4.000 metros. Aparentemente não sentimos o efeito da altitude. Fomos jantar a duas quadras do hotel. Na volta, minha esposa começou a sentir dor de cabeça e náuseas, parecia que o hotel não chegava nunca. Passou mal a noite toda. O oxigênio que levamos foi muito útil, recomendo a quem for levar. No dia seguinte lhe ofereceram folhas de coca para mascar. Não conseguia nem olhar para as folhas que voltavam as náuseas e vômitos. A recomendação é mascar as folhas antes que o “apunamento” pegue forte. 

Uma dica de hospedagem muito legal em SALC é a Hosteria de las Nubes. Reservem antes, pois está sempre lotada. 

Existe uma linha de trem que faz um passeio turístico entre Salta e SALC, o Trem de las Nubes. O viaduto La Polvorilla é o viaduto férreo de maior altitude no mundo. A visita é obrigatória para quem vai passar na região. 

La Polvorilla

Viaduto La Polvorilla

De SALC começou nossa aventura pela altitude. Seriam vários dias entre 3.500 e mais de 4.000 metros, e não poderíamos abusar de nossos organismos.

Nosso destino seria Antofagasta de la Sierra, uma cidadezinha 300 km ao sul. No caminho passamos pelo Salar del Hombre Muerto (achei melhor nem perguntar o por quê do nome) e pelas ruínas de Incahuasi, uma antiga mina de prata dos Incas. 

Caminho a ADLS

Chegando ao Salar del Hombre Muerto

Antofagasta de la Sierra (ADLS) é um lugar fantástico, base de explorações e passeios para mais de mês! O município tem mais de 200 vulcões, todos inativos. Tem vários petroglifos, ruínas de fortificações incas e está perto do Salar de Antofalla, Campo de Piedras Pomés e Vulcão Galán, a maior cratera do mundo com a maravilhosa Laguna Diamante dentro dela. O melhos lugar para se hospedar é a hosteria municipal. 

Alumbrera

Vulcão Alumbrera

ADLS

Antofagasta de la Sierra

Subimos no vulcão Antofagasta, uma subida fácil que permite uma linda observação da região. Podemos ver “los negros”, línguas de lava de alguma erupção antiga, montanhas coloridas e toda a região de ADLS. 

Antofagasta

Topo do Vulcão Antofagasta

De ADLS partimos rumo ao oeste, para o Salar de Antofalla. Depois de cerca de 100 km chegamos à vila de Antofalla, com 40 habitantes às margens do salar. É incrível como eles vivem isolados. Mas a vilazinha tem uma professora e as poucas crianças vão à escola. O salar é maravilhoso e guarda surpresas, como os Ojos del Salar. São pequenas lagoas coloridas de origem vulcânica. Algumas laranja, outras azuis e cinza.

Caminho a Antofalla

Caminho a Antofalla

Salar

Salar de Antofalla

Ojos

Ojos del Salar

Seguindo por mais 40 km por dentro do salar chegamos a um lugar incrível, aos pés do vulcão Antofalla: a Veja la Botijuela. Vega é a nossa várzea. No meio de tanto deserto, surge uma nascente de água quente que dá vida há um pequeno ecossistema. Essas terras pertencem a Simon, um homem que aí vive solitário criando ovelhas, como um ermitão.  A chegada de turistas é uma festa para ele, fala “pelos cotovelos”. 

Botijuela

Vega La Botijuela

Voltamos então a ADLS e partimos para El Peñon, vilazinha a cerca de 40 km. Nos hospedamos na excelente hosteria “La Poméz”. A partir de El Peñon voltaríamos à “civilização”.

Em El Peñon fica o maravilhoso campo de Piedras Poméz. O contraste das pedras brancas com a areia negra, os cerros colorados e o vulcão Carachi Pampa formam uma paisagem única.

Poméz

Campo de piedras Poméz

Poméz

Mais Piedras Poméz

Poméz

Ao fundo, vulcão Carachi Pampa

Mário decidiu seguir até Santiago, no Chile. Eu também voltei pelo Chile, mas por San Pedro de Atacama. A travessia para o Chile seria feita pelo Paso San Francisco. 

Seguimos então a Fiambalá, ponto de partida para o Paso. Existem 2 caminhos a Fiambalá à partir de El Peñon: um pelo asfalto e outro que cruza pelo campo de Piedras Poméz e grandes “arenales”. Como estava só, segui pelo asfalto. O caminho passa por Belém, Copacabana e Londres! Sim, são cidades homônimas. Em Londres existem umas ruínas incas muito bonitas, chamadas El Shincal” 

Shincal

Ruínas El Shincal

A principal atração de Fiambalá são as termas, que ficam num lugar muito bonito, encravado nos Andes. O problema é que quando passamos por lá a temperatura estava acima dos 30 graus, e a água a 40 graus não era muito convidativa.

Fiambalá

Termas de Fiambalá

 Partimos para o Chile, rumo a Baía Inglesa, no Pacífico. O caminho ao Paso San Francisco passa por montanhas maravilhosas, chamadas de Seismiles. São vulcões maravilhosos com cumes acima de 6.000 metros. Entre eles o Incahuasi, San Francisco, Pissis, Três Cruces e o mais alto vulcão do mundo, o ativo Ojos del Salado. Com seus 6.892 m, é a segunda maior montanha das Américas, apenas 70 metros mais baixo que o Aconcágua. 

San Francisco

Caminho ao Paso San Francisco

No Paso San Francisco atingimos o ponto mais alto da viagem, 4.726 metros.

Paso

Paso San Francisco

Ojos del Salado

Ojos del Salado 

Baía Inglesa é uma praia simpática no Pacífico. Nada demais perto das praias que conhecemos. No dia seguinte seguimos nossa viagem rumo ao norte, com direito a um passeio pelo Parque Nacional Pan de Azúcar. Fica no litoral e inclui algumas ilhas onde existe uma fauna típica de águas frias: leões marinhos, pingüins, pelicanos, lontras e muitos outros pássaros. 

Pan de Azúcar

Parque Nacional Pan de Azúcar

Próximo destino: Iquique. Sempre quis conhecer Iquique pelas histórias que tinha ouvido sobre as minas de salitre. Em 1907 ocorreu um grande massacre de mineiros que reinvidicavam melhorias nas condições de trabalho, que era praticamente escravo. As ruínas das salitreras são tombadas com patrimônio histórico pela Unesco. Embora Iquique fique no litoral, está na região do deserto de Atacama, de uma aridez impressionante. Nunca chove na cidade. 

Iquique

Iquique

Salitreras

Salitreras em Iquique

O caminho entre o Parque Pan de Azúcar e Iquique, passando por Antofagasta não é muito bonito. Cruza o deserto de Atacama, a paisagem é incrivelmente seca. Tudo é monocromático, marrom e parece uma paisagem devastada. Talvez a estrada pelo litoral seja mais bonita, mas estava interrompida devido a um grande terremoto do final de 2007. 

De Iquique seguimos à turística San Pedro de Atacama. É impressionante o número de turistas na pequena cidade. Tudo é bem caro por lá. San Pedro fica no pé dos Andes e de deserto não tem nada. A vila é muito simpática, e as atrações no entorno, como o vale da Lua, Deserto de Sal, Salar de Atacama, gaisers de El Tatio e as Lagunas são muito bonitas.

Valle de la Luna

Valle de la Luna - San Pedro de Atacama

El Tatio

Buscando calor em El Tatio

Subindo os Andes pelo Paso Sico, a poucos quilômetros daí está o desconhecido NOA. Penso que é obrigação de quem conhece a região divulgar as belezas do NOA para os aventureiros que vão para o Atacama. A região é muito mais barata e, em minha opinião, muito mais bonita. Conversei com muitos brasileiros que estavam em San Pedro com carros maravilhosos e nunca tinham ouvido falar no NOA. Vieram por asfalto, passaram a poucos quilômetros de San Antonio de los Cobres e não conheceram a região. 

A travessia dos Andes pelo caminho tradicional (Paso Jama) é muito bonita. Passamos ao lado da divisa com a Bolívia, aos pés do vulcão Licancabur. Daí sai a estrada que leva ao Salar de Uyuni. Com certeza será nosso destino em outra viagem. 

Licancabur

O belo Licancabur

Fomos dormir em Purmamarca. Antes passamos pelas Salinas Grandes, um grande salar branco. A descida dos Andes, já na Argentina, é feita pela Cuesta de Lipán, uma estrada cheia de curvas que passa por montanhas coloridas. A principal atração de Purmamarca é uma dessas montanhas, chamada Cerro de las Siete Colores. 

Salinas

Salinas Grandes

Lipán

Cuesta de Lipán

7 colores

Purmamarca - Cerro de las Siete Colores

Pertinho de Purmamarca está a região da Quebrada de Humauaca. A região toda é tombada como Patrimônio da Humanidade pela Unesco, por sua história da libertação da Argentina, ruínas a e pelas belezas naturais. 

Continuamos nosso caminho de volta ao Brasil, dando mais uma voltinha pela região de Cafayate. Passamos pelas ruínas de Quilmes, a maior ruína Inca da Argentina e Tafi del Vale, outra bela região vinícola. Pouco antes de Tafi existe o museu Pachamama, um museu muito interessante que vende artesanatos em cerâmica de um artista local. As cerâmicas são maravilhosas e muito baratas. Os pouco lugares disponíveis no carro foram preenchidos com vasos, pratos e potes... 

Quilmes

Ruínas de Quilmes

Pouco antes de Foz do Iguaçu ainda passamos pelas belas ruínas jesuíticas de San Ignácio de Misiones, perto de Posadas. 

Foram 24 dias de viagem e cerca de 11.000 km percorridos. Voltamos incrivelmente descansados e pensando quando voltaremos à região.








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