Jalapão 2012 - Norte, Centro Oeste,

Aqui, um breve relato de uma viagem de Goiânia a Ponte Alta  -  viajando pela BR-153 na maior parte do percurso  -  e de Ponte Alta a Mateiros, pela TO-255.

Nos primeiros dias, camping selvagem às margens do rio Novo.   Isto ainda é possível naqueles rincões do Brasil!

 

Jalapão - Diário de Bordo - fevereiro de 2012

 


     
Sexta-feira, 17/02/12

 


        Deixei Goiânia às 6 horas da manhã rumo ao outrora deserto do Jalapão  -  que de deserto não tem mais nada  -  tendo como navegador o Neto, amigo de longa data, que viera de São Paulo na véspera.


        Há poucas horas da partida, li nas mensagens dos Viajantes4x4 a notí­cias sobre restrições da Naturatins à visitação no Jalapão.   Era só o que faltava: ter um ou outro burocrata incompetente, normalmente um eco-chato, dizendo onde podemos ou não ir...

        A viagem, feita pela BR-153 ia bem, tanto que passamos por Porangatu-GO, a 440 km ao norte de Goiânia e maior cidade do norte de Goyaz na hora do almoço.   Por lá o Neto decidiu sentar-se na frente de um PF feito às pressas, num lugar mal preparado para servir suas 4 ou 5 mesas, mas que aceitara a encomenda de servir 70 pessoas, de ônibus de romeiros de passagem pela cidade...  


        Pouco depois de percorrer mais 60 km, quando estávamos próximos da divisa com o Tocantins, vi a luz vermelha da bateria acender-se no painel e ouvimos um barulho estranho vindo do motor...   Desliguei a Land imediatamente, procurando apenas um lugar no acostamento, o  mais distante possí­vel da estrada e quase dentro do mato!

        Do alternador, um Bosch (que já não era o tão mal-falado original) saia fumaça...   imaginei o óbvio: os rolamentos se partiram, o rotor saiu do centro e atingiu o estator.   Pelo menos não haviam danos à correia poli-V, recentemente trocada.

        Sinalizei a BR-153 com o triângulo, liguei os piscas enquanto o Neto separava as cervejas geladas que tínhamos nas caixas de gelo.   Peguei as cadeiras e as montamos do outro lado da estrada, debaixo de uma sombra, onde esperamos o socorro que chegaria daí a mais ou menos 1 hora!


        Chegamos na cidade de Porangatu lá pelas 5 da tarde, encontramos uma auto elétrica que fora recomendada pelo motorista do caminhão prancha e aí, iniciou-se o nosso calvário...   o problema fora mesmo com os rolamentos, que chegaram a fundir e o rotor fora do centro provocou um curto no estator.   E não havia nada parecido com aquele alternador na cidade!   Nada parecido com um alternador Bosch como aquele...

        A Land usa um alternador compatí­vel com o motor (fixação), mas que não é o original.   Deste, aproveita apenas a polia.   Apesar do alternador atual ser um Bosch, atacou aqui o espírito de Lucas, The Lord of Darkness...   Quem tem um Land Rover Defender sabe do que estou falando*...   :-( 

 

*O fabricante do sistema elétrico da Land Rover era (não sei se ainda é) a empresa chamada "Lucas".   Por causa dos recorrentes problemas elétricos dos Land Rovers, em especial nos alternadores originais, costumamos dizer que o espírito de Lucas nos assombra!

 

        Dispostos a continuar na estrada, independente do alternador que instalaria na Land Rover, decidimos dormir na oficina mesmo, pois a viatura estava absolutamente cheia de ferramentas, peças sobressalentes (agora, conta também com um alternador reserva), cintas, patesca, guincho, rádios, GPS, câmeras, caixas e mais caixas com comidas e bebidas...   Não dava para ir para um hotel abandonando por ali a carruagem, os cavalos e o tesouro!


       
Sábado, 18-02-12


       

        Cansados da viagem e da busca inglória por um simples alternador, dormimos por 10 horas.   Não vi a noite passar!   Daí­ a pouco, amanheceu um dia claro, de sol forte e ventos suaves que sopram enquanto o calor aumenta, como costumam ser os dias no norte goiano!   Daí­ a pouco voltamos a escolher dentre vários, qual alternador seria instalado na Land...

 

        Cheguei a optar, apenas para concluir a viagem, por um alternador antigo e com pequena capacidade de carga, usado orinalmente nos Ford Del Rey.   Aí, imaginei quantos anos teria aquela coisa...   :-(

        Até que "apareceu" na oficina uma  pequena picape Ford Courier, que tem o mesmo alternador que a Land precisava.   Ante a dificuldade de negociar com o interessado, mandei instalar o alternador de Del Rey só para seguir viagem, comprando outro ao retornar.   No final das contas, comprei o alternador da Courier, pelo qual paguei menos que o valor que pagara pelo anterior  -  e ainda negociei incluindo mão-de-obra e rolamentos novos!   Apesar dos pesares, um bom  negócio...

         Com 20 horas de atraso, continuamos pela estrada rumo ao Jalapão!   Abastecemos em Gurupi e sempre por estradas asfaltadas e em ótimo estado, finalmente chegamos em Ponte Alta.   Lá, abastecemos novamente e tive o desprazer de não passar pela ponte que dá nome à cidade, que de "alta" não tem nada.   A entrada da tal ponte foi limitada e esta virou uma ponte baixa e mixuruca.   A Defender não passa por ali!   


        A partir desta última cidade alcançada por estrada asfaltada, entraríamos no trecho em leito natural da TO-255, em melhor estado agora do que quando passei por ali em julho de 2010!

        Nosso destino inicial, a cachoeira da Velha, estava praticamente interditada pelos burocratas da Naturatins, que decidiram "proibir tudo", no Jalapão...   Eu queria ir para lá, acampar assim mesmo às margens do rio e perto da cachoeira, mas a voz mais sensata do Neto prevaleceu, dizendo que deveríamos evitar confusão (que eu decerto arrumaria por lá) e seguíssemos para o nosso próximo destino, as margens do rio Novo, 130 km adiante de Ponte Alta.


         Chegamos lá por volta das 10 da noite, depois de vencer alguns buracos, ver as valas abertas em 2010 "tampadas" por pedras "que mais se parecem tatus, de tão grandes"  -  como nos dissera um jipeiro logo após deixarmos Ponte Alta.   A primeira coisa que fizemos foi abrir 2 latinhas gelaaaadas, enquanto retirávamos a tralha da Land!

        Descobrimos então que o disco de arado transformado em churrasqueira, quebrara uma das caixas de gelo que havíamos levado, na buraqueira da TO-255 desde Ponte Alta.   Montamos o acampamento em poucos minutos, exatamente onde estivera em 99, 2001 e 2010, sem porém ter acampado, nestas outras viagens!   Que lugar!!!


        Daí­ a pouco assamos as lingüiças temperadas, que encomendei a um açougue em Goiânia mais a carne comprada em Gurupi.   A prosa, como não poderia deixar de ser, foi sobre viagens, acampamentos, 4x4...  


        Dormi 12 horas sem acordar nem uma vez, sem ouvir barulhos de carros, de nada que lembrasse a civilização...   apenas embalado pelo barulho do correr das águas do rio Novo, caudalosas neste "inverno"  -  como é chamada a estação das águas  no norte do Brasil.

   
Domingo, 19-02-12




        Depois de levantar, ver o dia claro e o sol que já ia alto no céu apesar das nuvens, tivemos um dia cansativo, às margens do rio Novo...


        Fizemos o café da manhã e a limpeza dos talheres e pratos, pois se há algo que é desagradável num acampamento, é a desordem!   Depois, algumas cervejas geladas e banho de rio, para amainar o calor!  


        Para almoçar, começamos acendendo uma  fogueira, buscando os poucos galhos de árvores caí­dos que haviam pelo lugar.   Acesa a fogueira, com o fogo crepitando por entre as pedras, dei bom uso ao disco de arado!   Enquanto isso, no fogareiro o arroz "inflável" que havíamos comprado!   Difí­cil de transportar, mas ótimo para assar carne, esse disco de arado!

        Depois do almoço e para "ajudar  a digestão", mais uma cerveja bem gelada e outro banho de rio!


        Acampamento arrumado e coisas em ordem, tanto na Land como ao redor, mais um banho de rio para esperar o tempo passar até o jantar!


        Saí­mos para observar os arredores e fotografar o rio Novo a partir da ponte e observamos muitas marcas de pneus, coisa rara nos anos anteriores.   Exatamente há 11 anos, no carnaval de 2001, encontramos apenas um grupo de Belo Horizonte acampando em todo o Jalapão!   E nada mais!   


         Agora, além de congestionamento de 4x4, encontramos pessoas que trocaram as freqüências que usavam nos rádios, pois haviam vários grupos usando a mesma freqüência!

        Depois do jantar e uma breve caminhada por ali, o sono veio de uma vez e lá se foram mais 12 horas dormindo, ouvindo apenas o barulho da chuva na manhã da segunda-feira, que começou nublada e cinzenta...

 



Segunda-feira, 20-02-12

 

 

        Logo cedo, mas cedo de quem dormiu bastante, tomamos o café da manhã, com ovos, manteiga, queijo, suco, leite e Ovomaltine, além do pão com castanha do Pará, que o Neto escolheu quando fizemos as compras para a viagem.   Depois, quando o sol finalmente apareceu, colocamos a barraca para secar e desmontamos toda a tralha, que voltou para as caixas e estas para o porta-malas!


         Desta vez o disco de arado foi amarrado ao pneu estepe, na porta traseira!

        Neste momento, pouco antes das 11 da manhã, ouvimos pelo rádio as conversas de um pessoal de Brasí­lia que acampara rio abaixo.   Estavam em 16 veí­culos, sendo 14 Trollers!   Eles também desmontavam acampamento.


        Mais um banho de rio e botamos a 110’’ na estrada, rumo a Mateiros-TO e à cachoeira da Formiga, nosso destino naquele dia.   Na estrada, mais adiante, encontramos esta turma de Brasília e mais uns tantos veículos na entrada das Dunas.  

        Como tudo no Jalapão, a Naturatins agora controla a entrada das Dunas e o que era um passeio tranqüilo, hoje é um tormento, com preenchimento de fichas, longas filas de espera e limitação de tempo de permanência.   Além disto, apenas 10 veí­culos podem entrar por vez...   Resultado: uma longa fila de espera às margens da TO-255.


        Passamos por Mateiros às 4 da tarde e chegamos finalmente à cachoeira da Formiga, uma das mais bonitas do Jalapão, com suas águas límpidas completamente transparentes e quase mornas!


        Ao chegar lá, dei passagem a um Mitsubishi TR 4 que vinha em sentido contrário e que adiante parou e buzinou.   De lá ouvi alguém dizendo:  "  -  Ei!   O que você está fazendo aqui, na minha estrada?!"  


        Era o Darlan, de Brasília, companheiro da expedição de setembro/2011, quando fomos ao Mato Grosso!   Lá estava ele com a  Weslane e a filha Bárbara!   Mais uma boa prosa e um tempo parado por ali, falando da expedição de setembro deste ano de 2012, quando iremos às cachoeiras do Centro-Oeste, desde Costa Rica-MS até Piranhas-GO!


        Depois, cada um seguiu seu rumo.   Ele e a famí­lia foram para a pousada próxima a Mateiros e nós continuamos mais alguns metros, rumo ao acampamento na cachoeira da Formiga.

        Atualmente, não se pode acampar na beira do poço da cachoeira, como fizemos em 2001.   Há cercas e a estrada que permitia o acesso aos carros, aos poucos vai sendo coberta pelo mato.   Escolhemos uma área plana, estacionamos a Land próxima aos fundos da barraca e aproveitamos o que restava de luz do dia para tomar um longo banho naquelas águas!

 

        Por volta das 8 da noite, começou a chegar por ali o pessoal de Brasília que ficara às  margens da TO-255, no congestionamento de 4x4 que antecedia a visita às Dunas...

       
        Ainda que tenham ido ao Fervedouro e passado umas 2 horas por lá, eles ficaram pelo menos 2 horas esperando para visitar as Dunas.   No Jalapão que eu conheci no distante ano de 1986 e reencontrei em 99 e 2001, isto era impensável.   Mesmo em 2010, encontramos pouco movimento naquelas estradas.   Aquilo lá era um enorme "nada" no meio do Brasil!

       
        Daí a pouco, montamos a cozinha completa e o jantar desta noite, ficou por conta do Neto, que preparou um sofisticado prato à base de massas: macarrão miojo! rs,rs...

        Depois do jantar, fui ao acampamento dos candangos (como os brasilienses de hoje, muitos por lá nascidos, não gostam de ser chamados!) onde me contaram que a estrada de Dianópolis (sudeste do Tocantins) até quase Alto Paraí­so-GO, está repleta de crateras no asfalto, que danificou o pneu de uma LR Discovery, que passar por ali é um suplí­cio, etc.   Desisti então de voltar por Alto Paraí­so e PN da Chapada dos Veadeiros...   Lamentável, pois o caminho é muito bonito, em especial nos arredores de Alto Paraí­so e de lá até Brasília!

        Comentei com o Neto acerca do estado da estrada e optamos por retornar pela TO-255 dali até Ponte Alta (terra) e continuar pela mesma estrada até Porto Nacional, Brejinho de Nazaré e mais adiante, na BR-153, passar por Gurupi e continuar no sentido sul.   O mesmo caminho da ida.

       
        Choveu bastante nesta noite, mas nada que uma barraca nova e bem montada não pudesse suportar.   De qualquer modo, a barraca de teto é uma opção mais do que necessária, para este tipo de viagem.  É fundamental!   Barraca de chão é para longos acampamentos no mesmo lugar.   Para expedições, onde o caminho que se percorre é a grande atração, parando em vários lugares ao longo da viagem, a barraca de teto é insuperável!



Terça-feira, 21-02-12




        Desmontamos o acampamento depois de um farto desjejum, com ovos mexidos, pão com castanhas, salaminho, doce de leite, sucos, leite e o que mais havia nas caixas de mantimentos, o que não era pouca coisa!   Depois do último banho de rio e com a Land com a bagagem organizada, acomodei a roupa suja dentro de sacos plásticos e no lugar de sempre: em cima da caixa de roda traseira esquerda, atrás das 2 barracas iglu que "moram" ali!

        Optamos por iniciar o retorno por uma estrada paralela que chega à TO-255 depois de Mateiros  -  por onde não passamos  -   para nos lembrar como eram as estradas no "velho" Jalapão, nos bons tempos em que se viajava por ali por dias e dias sem encontrar ninguém...   e  mesmo nesta estrada, passamos por uma moto, em sentido contrário!

        E lá se foram 200 km até Ponte Alta, onde chegamos lá pelas 4 da tarde, depois de mais de 4 horas na estrada.   Passamos pela cidade rumo a Gurupi, onde abastecemos a Land, jantamos (péssima comida) e seguimos viagem para mais adiante, para ganhar tempo no dia seguinte.   Encontramos um hotel em Alvorada-TO e por lá ficamos!

        Reconheço que depois de uns dias de acampamento selvagem, apenas com os recursos que podemos transportar no veículo, tomar um banho quente e dormir numa cama de verdade é uma boa idéia, mas por ironia, esta foi a noite mais mal-dormida.   Cama e travesseiro de hotel não são a melhor coisa do mundo, quando se está acostumado ao próprio equipamento...   Deveria ter retirado da Land ao menos o travesseiro e o saco de dormir!


Quarta-feira, 22-02-12

 


        Levamos mais tempo do que pretendíamos para tomar o café da manhã e deixar o hotel, mas pouco depois das 8 da manhã (horário de verão aqui, inexistente no Norte) deixamos a cidade de Alvorada rumo a Pirenópolis-GO.

       
        A BR-153, calma e com pouco movimento na sexta-feira anterior, encontrava-se mais movimentada, mas mesmo assim, fizemos uma ótima viagem, percorrendo esta estrada até um pouco ao sul de Jaraguá-GO, quando então optamos pelos últimos quilômetros, até Pirenópolis, pelo leito natural da BR-070.  

       
        Esta estrada, que liga o DF até à fronteira do Brasil com a Bolívia, está quase toda asfaltada, mas restam-lhe ainda alguns quilômetros de terra no trecho goiano da rodovia.

 

        Passamos a tarde em Pirenópolis e à noite, depois de um jantar onde o prato principal foi empadão goiano, chegamos em Goiânia!

 

 

Alguns gastos:

5 dias viajando;

+/- R$ 400,00 em alimentos e bebidas;

alternador = R$ 380,00 e rolamentos novos = R$ 50,00

Camping na cachoeira da Formiga = R$ 10,00/diária/pessoa

Hotel Guaporé, em Alvorada-TO = R$ 70,00/apto. duplo

2.390 quilômetros rodados;

249 litros de óleo diesel/R$ 490,00

9,6km/l.








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